As motivações dos voluntários internacionais em Rojava (parte 2)

A flor ajuda a abelha dando-lhe néctar, e a abelha ajuda a polinizar a flor ao mover-lhe o pólen de flor para flor.

Horrorizado pelos vídeos barbáricos que o Estado Islâmico do Iraque e Síria estava a carregar para a Internet, com decapitações, execuções em massa de civis e corpos a serem atirados de penhascos e telhados, Jordan Matson – um homem americano de fortes convicções cristãs vindo do Wisconsin, nos Estados Unidos – decidiu que iria fazer algo para os parar. E assim chegou o primeiro voluntário internacional a Rojava para lutar lado-a-lado com os curdos.

Jordan chegou a Rojava em outubro de 2014 e rapidamente tornou-se respeitado pelos guerreiros curdos pela sua coragem e empenho na luta contra o Estado Islâmico. Ele foi o primeiro numa longa linha de Voluntários Internacionais que seguiriam o mesmo caminho pelos próximos seis anos, embora hoje o tipo de Voluntário Internacional em Rojava seja muito diferente daquele que veio nesses primeiros dias.

Macer, Jack, Jim, Ashley, Kostas e tantos outros têm vindo a seguir os passos de Jordan: é impossível nomeá-los a todos a não ser que se tenha um registo oficial em Rojava que os detalhe a todos e nos providencie com uma imagem mais clara desses heróis, como eu pessoalmente os vejo, que abandonaram o conforto das suas casas para viajar para uma terra distante para se voluntariar e empenhar, de corpo e mente, a lutar, conviver, aprender, educar e ajudar outros na sua luta revolucionária. Estima-se que até 1,000 Voluntários Internacionais tenham servido no Nordeste da Síria lado-a-lado com os curdos e os povos da região.

Há quem os compare às Brigadas Internacionais que responderam ao apelo da República Espanhola para combater o fascismo, mas para outros, a comparação com os horrores da guerra no Vietname é mais apropriada, por muitos terem assistido e vivido a horrores para além da nossa imaginação.

Houve gente corajosa como Ryan Lock, que caíram nas mãos do EI e, em vez de serem exibidos em fatos laranjas, viraram as suas armas sob si próprios. Há Jack Holmes, cujas histórias de luta corporal com guerreiros do EI me levantaram os cabelos. Falei com a mãe do Jack, Angie Blannin, e ela lembrou-me que, apesar do grande vazio que fica nos pais dos Voluntários Internacionais que caíram, a maioria lembra-se dos filhos com orgulho.

“O Jack cresceu para ser o homem que devia ser nos três anos que lutou no Iraque e na Síria. Como foi dito antes, o EI não é só um problema do Médio Oriente, é um problema global e o Jack sentiu que os governos ocidentais, tendo criado o problema, não estavam a fazer o suficiente para o resolver. Terei saudades de Jack até ao meu último suspiro, mas estou incrivelmente orgulhosa do que ele conseguiu para um jovem de 20 anos”, Angie disse-me.

Isto foi repetido por Jane Lyndon, mãe de Ollie Hall, que caiu sob uma armadilha do EI em Raqqa na Síria enquanto limpava uma área de explosivos para permitir a civis voltarem às suas casas. “Não sabíamos que o Ollie estava a viajar para a Síria em agosto de 2017, mas sabíamos que ele tinha emoções fortes acerca do horrível terrorismo do EI. Ele deu-me boleia para o trabalho no dia em que foi embora e estava muito zangado e fervoroso acerca do tratamento de mulheres e crianças pelo EI. Ollie descobriu o seu propósito lá na Síria e enviou-me vídeos dele a dar água a crianças, a explicar que as Nações Unidas não fazem nada por elas. Obviamente, estávamos todos devastados com o que aconteceu, mas também estamos muito orgulhosos e agora eu entendo porque razão ele foi para lá. Caso ele tivesse regressado ao Reino Unido, ele teria voltado à Síria para continuar a ajudar o povo curdo. Estamos todos muito orgulhosos de toda a gente que abandona os seus confortos caseiros para ajudar o povo curdo”, ela apontou. Jane queria agradecer, em particular, a todas as pessoas curdas que tinham sido tão solidárias com ela e a sua família desde a morte trágica de Ollie a 25 de novembro de 2017.

Para Asmin, uma coordenadora curda das Voluntárias Internacionais das Unidades de Defesa das Mulheres (YPJ) em Rojava, é possível ver a relação simbiótica entre os Voluntários Internacionais e a Revolução de Rojava.

Falando com Asmin no que hoje se chama de Administração Autónoma do Norte e Este da Síria, (AANES), ela conta sobre as contribuições e as motivações dos Voluntários Internacionais com muito orgulho na voz: “A participação dos Voluntários Internacionais começou com a guerra contra o Daesh. Eles lutaram lado-a-lado connosco, os curdos, árabes, assírios e outros povos de Rojava, na guerra contra o EI. Eles lutaram connosco. Eles morreram connosco. Eles viveram lado-a-lado connosco e aprenderam muito acerca da cultura de Rojava connosco. Eles evoluíram para se tornar numa ponte entre Rojava e o mundo exterior. Para permitir ao mundo aprender acerca da Revolução de Rojava. Os Voluntários Internacionais jogaram um papel crítico em fazer a Revolução de Rojava conhecida por todo o mundo.”

Asmin explicou que as motivações dos Voluntários Internacionais mudaram nos últimos anos: “Depois do Daesh ter sido derrotado e o carácter da guerra ter mudado, a Turquia atacou Rojava diretamente e vimos os voluntários que eram mais ideologicamente motivados emergir – por exemplo, Şehid Helin (a Voluntária Internacional britânica Anna Campbell) que estava preparada para lutar contra a Turquia, um Estado-Nação e membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO). Nós conseguíamos ver a coragem e sabedoria desses novos Voluntários Internacionais ideológicos que queriam defender a revolução e ficar connosco em Afrin, Serekaniye, Girê Spî e noutros lugares onde as forças estatais turcas nos atacaram”.

Asmin, que tem lutado lado a lado com muitos Voluntários Internacionais e perdido muitos amigos, continuou: “Voluntários Internacionais estão presentes em todas as esferas da sociedade civil e militar: trabalham nas organizações de mulheres, em Kongra Star, em Jineology, na educação, hospitais, engenharia, finança e, claro, algumas pessoas tratam do trabalho de media, que é crítico para explicar o sistema de Confederalismo Democrático e os trabalhos internos do novo sistema que estamos a tentar implementar em Rojava”.

Asmin continua: “Os Voluntários Internacionais recebem treino e educação quando chegam e trazem ideias novas que podemos implementar na nossa nova sociedade em construção. Um ponto importante que gostaria de destacar é que esses amigos vêm do que chamamos de sistema da modernidade capitalista e, portanto, são capazes de analisar, comparar e contrastar esses sistemas com o nosso novo sistema de modernidade democrática a emergir. Portanto temos discussões fantásticas e fervorosas entre nós que nos beneficiam a ambos, os Voluntários Internacionais e nós próprios, os curdos. Todos apreciamos esta relação de partilhar ideias e crescer juntos nisto.”

Asmin conclui com uma afirmação muito comovente acerca da contribuição dos Voluntários Internacionais em Rojava. Ela diz: “Nós, enquanto curdos, ganhamos muito desta relação e eles, enquanto internacionalistas, ganham muito também, portanto é verdadeiramente uma relação simbiótica entre a revolução e os nossos amigos Voluntários Internacionais. Podemos dizer que a revolução aqui faz crescer e enriquece os Voluntários Internacionais e que os Voluntários Internacionais fazem crescer e enriquecem a Revolução de Rojava”.

Um desses Voluntários Internacionais que também tem uma contribuição significativa para a revolução e como é compreendida fora de Rojava é Thomas McClure, um Voluntário Internacional britânico e jornalista profissional que tem estado em Rojava à três anos. Ele tem ajudado a montar e gerir o Rojava Information Centre, que Thomas descreve como um corpo independente que procura ser a maior fonte de notícias para jornalistas e organizações de direitos humanos que queiram informação e entender a situação em Rojava.

Thomas descreve as suas motivações para querer ir para Rojava. Ele pensou que havia, nas suas palavras, “ideias entusiasmantes a ser experimentadas aqui e que é imensamente importante entender este novo sistema dinâmico que foi estabelecido e cresce a cada dia. Eu queria usar as minhas capacidades enquanto jornalista profissional para ajudar a criar uma ponte entre Rojava e o mundo exterior”. Enquanto jornalista, Thomas estava frustrado pela maneira com que os media turcos distorciam a realidade e como as distorções turcas estavam a dominar a narrativa acerca de Rojava, especialmente após a invasão de Afrin e a sua ocupação por forças turcas. Ele queria contribuir para um melhor entendimento dos eventos no Nordeste da Síria: ele pensa que não foram adequadamente compreendidos e sujeitos a exagerações por todos os lados.

Para o Voluntário Internacional Bawer dos Estados Unidos, que está em Rojava desde 2016, não é tanto acerca de ‘motivações’, mas acerca de quem tu és, como uma pessoa, lá no fundo. Como ele me explicou numa cidade no nordeste da Síria: “Toda gente tem as suas próprias motivações para vir a Rojava. Alguns vieram simplesmente por se sentirem motivados em combater um inimigo vil, enquanto outros vieram para defender uma nova experiência política. Outros vieram à procura de algo novo. Mas tornou-se óbvio bastante cedo que mais importante do que a nossa motivação era o tipo de pessoa que és, quando cá estás.”

“Podes ler mil páginas de teoria ou disparar mil tiros perfeitamente, mas quem tu és, lá no fundo, enquanto pessoa? Isso é o que importa mais para nós. O companheiro que te trazia chá às 2 da manhã numa madrugada glacial em serviço de guarda, ou que te ajuda a ajustar a tua arma quando não estavas a conseguir fazê-lo: são esses que te lembras, independentemente de onde tenham vindo ou porquê. Esses são quem verdadeiramente encarna o espírito da revolução que Serok Apo (Abdullah Öcalan) deu ao mundo. Esses são aqueles que ainda sentes ao teu lado quando estás com dificuldades”, Bawer notou, lembrando-se desses vários amigos que caíram junto a ele, tanto curdos como Voluntários Internacionais.

A vasta maioria dos Voluntários Internacionais partilhará os sentimentos do voluntário italiano Lorenzo ‘Orso’ Orsetti que foi morto por uma emboscada do EI em Baghouz a 18 de março de 2019. Orsetti sintetizou as suas motivações para lutar em Rojava desta maneira: “Rojava é a mais bela revolução no mundo, o mais próximo que encontrei dos meus ideais e é um prazer e honra ter tomado parte nela!”.

PARTE 1

FUENTE: Mark Campbell / Medya News / Traducción: Confederalismo Democrático Brasil

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